SE É A MERA CURIOSIDADE QUE AQUI TE CONDUZ, DESISTE E VOLTA; SE PERSISTIRES EM CONHECER O MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA, FAZ O TEU TESTAMENTO E DESPEDE-TE DO MUNDO DOS VIVOS.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reflexões de Fernando Pessoa sobre a Maçonaria Cristã

Antes de iniciar este trabalho quero fazer uma reflexão. É a de que Fernando Pessoa considera, nestas suas notas, a Maçonaria como uma ordem iniciática com uma doutrina esotérica específica, preparatória para outras vias mais altas de Ocultismo.
Feito este reparo, e considerando todavia o grande interesse destas reflexões, entro na matéria do trabalho.
Conforme bem sublinhou Yvete Centeno na sua obra Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, o interesse pelo ocultismo e pelas tradições herméticas despertou no poeta por volta de 1906, quando tinha dezessete anos e vivia ainda na África do Sul.
Cedo Fernando Pessoa se afastou da religião católica em que tinha sido criado, como se pode constatar pelos fragmentos Excomunhão a todos os sacerdotes e sectários de todas as religiões do mundo, assinado por Charles Anon (1907) e Pacto com Satanás, feito por Alexander Search no mesmo ano.
Destas duas personagens literárias inglesas, só Search deixa umas centenas de poemas, entre os quais o poema Circle, de raiz nitidamente mágica.

O CÍRCULO
Tracei um círculo no chão,
Era uma figura estranha mística
Onde eu pensei que não haveria abundam
Mudo símbolos adequados de mudança,
E fórmulas complexas de Direito,
Qual é a boca do bucho da mudança.
Meus pensamentos mais simples em vão tinham originado
O atual dessa loucura livre,
Mas esse meu pensamento é condenado
Para símbolo e analogia:
Considerei um círculo pode se condensar
Com calma toda violência mistério.
E assim, em clima cabalístico
Um círculo traçado curioso eu ;
Imperfeito do círculo feito ficou
Pensamento formado com minuciosa atenção.
Do fracasso da magia profundamente I
A lição foi aprendida para me fazer suspirar.
A sua vinda para Lisboa em 1908 e a frequência da Faculdade de Letras levam o poeta a interessar-se pelo estudo da filosofia. A sua produção dessa data é constituída por apontamentos, anotações de leituras e sinopses de livros de filósofos. O poeta e pensador exprime-se então com a generosidade de quem procura o conhecimento com fins altruístas. Em 1910, numa lúcida auto-análise, Fernando Pessoa desabafa: “Eu era um poeta animado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas”.


A procura de uma “divindade” que estivesse relacionada com a razão, leva-o a escrever, em 1912, um poema às forças da natureza que acaba com o apelo: “Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama na estrada dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Fase com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como um pai.”
No ano seguinte faz uma série de poemas a que dá o título de “Além Deus” que podem ser sintetizadas na seguinte frase: ” O universo está já onde estará, e já isso, é Deus” / “Deus é o sentido para onde tendem todas as inteligências que governam este mundo contra a vontade satânica da matéria inerte”.

Pessoa afasta-se cada vez mais dos caminhos da religião tradicional: longe da igreja organizada, segue uma via pessoal, sentindo a necessidade de percorrer um caminho iniciático, definindo-o como um estádio neo-pagão, que influencia a produção dos seus heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e António Mora.
Em 1914 escreve uma carta à sua tia Anica, irmã de sua mãe, em que confessa as suas capacidades mediúnicas. Praticamente na mesma altura começa a interessar-se pela Teosofia e confessa ao seu amigo Mário de Sá-Carneiro que os princípios que esta doutrina defende “o incomodam tal como os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz”.
A partir desta data o poeta empenha-se a fundo nos estudos da Kabbalah, da Alquimia, da Astrologia, da Magia, da Geometria Sagrada, dos Mistérios Antigos, do Hermetismo em geral e do pensamento de Hermes Trimegisto em particular, tentando assim atingir a Gnose.
Em 1920, quando acaba a primeira fase do namoro com Ophélia Queiroz, Fernando Pessoa escreve na carta de ruptura: “O meu destino pertence a outra Lei cuja existência a Ophélinha nem sabe, está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.”
Supomos serem desta data as reflexões sobre Maçonaria e Iniciação Maçônica que passamos a transcrever:
(…) Iniciar alguém, no sentido hermético, é conferir-lhe conhecimentos que ele não poderia obter por si, quer pela leitura de livros, quer pelo exercício da sua inteligência, por forte que ela seja, quer pela leitura de livros à luz dessa mesma inteligência. (…)
(…) É essencial em primeiro lugar, que o profano seja, de índole e mentalidade, um simbolista, isto é, um indivíduo para quem os símbolos são coisas, vidas, almas e para quem paralelamente as coisas e os homens tenham, em certo modo, a vida irreal e analógica dos símbolos. (…)
(…) Aquilo a que se chama “Iniciação” é de três espécies: Há, primeiro, e no nível ínfimo, a Iniciação exotérica, análoga à Iniciação Maçónica, e de que esta é o tipo mais baixo: É a Iniciação dada a quem propriamente se não encaminhou para ela, nem para ela se preparou, e que serve para pôr o indivíduo em condições de poder dar-se o caminho exotérico de poder buscar, pelo contacto, embora exotérico, com símbolos e emblemas, o verdadeiro caminho. O mais exterior e nulo dos sistemas iniciáticos – como é hoje a Maçonaria – serve este fim, logo que tenha conservado os símbolos pelos quais em nós se infiltra o primeiro conhecimento do oculto. (…)
(…) A Maçonaria é um esquema simbólico, através de cuja linguagem, uma vez gradualmente compreendida, certos conhecimentos se vão obtendo, que fariam pasmar os Maçons vulgares, ainda os de alto grau. Ora os dirigentes superiores da Maçonaria forçosamente são aqueles que entendem e usam o que está contido nesses símbolos. E o que está contido nesses símbolos são os ensinamentos comuns à Cabala e ao chamado Budismo Esotérico. (…)
(…) O Templo de Salomão é a alma humana. A sua expressão interna e suprema. O Mestre Hiran, é morto pelos três assassínios. O Mundo (o desejo dos outros), a Carne (o desejo de si) e o Diabo (o desejo de mais que si) e é este último que dá ao Mestre na fronte o golpe mortal. A Grande Obra é o elaborar em nós no sentido estrito e pessoal, a transmutação do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não parece. (…)
Esta frase acima tem mas camadas do que parece. Os três assassinos de Hiram conectam-se diretamente ao simbolismo da Kabbalah, da maneira como Fernando Pessoa monta a frase, podemos perceber seu domínio completo não apenas sobre a simbologia maçônica, mas também sobre a estrutura da Kabbalah e do tarot hermético.
(…) São três os caminhos da Iniciação – pela emoção, pela vontade e pela inteligência (ou seja pelo enxofre, pelo sal, e pelo mercúrio). A Iniciação pela emoção adquire-se pela imersão em qualquer religião e pelo misticismo que haja nela. A Iniciação pela vontade adquire-se pertencendo a uma Ordem Iniciática qualquer, a Iniciação pela inteligência faz-se solitariamente, sem contacto fluido ou sólido com qualquer religião ou ordem, o único contacto é aquele, angélico com os Superiores Incógnitos. (…)
apenas os Martinistas utilizavam-se do termo “Superiores incógnitos”. Como naquela época não existia internet e estas ordens eram extremamente fechadas, torna-se claro que ele não apenas teve conhecimento da doutrina martinista como era familiar com os graus mais avançados desta.
(…) A expressão “Vale” de que se usa para definir um lugar de instituições maçónicas é um acto de humildade e verdade, que a Ordem seguiu por indicação superior. É a definição da baixa qualidade da iniciação que ela ministra, em relação à alta iniciação nas altas Ordens onde é referida sempre uma montanha, seja a de Heredon seja a de Abiegno. Pode ser que estas coisas nunca houvessem sido combinadas em palavras, mas ficaram certas nos factos. (…)
(..) No último e excelso sentido a Loja é o Arcano ou a arca da Verdade. O Mestre e os Dois que estão com ele no governo da Loja são o símbolo das três verdades fundamentais ou Cabalísticas. Os Dois que, com estes três, formam os Cinco que completam a Loja são o símbolo dos princípios externos ou de relação, por meio dos quais a Verdade é o único que conta (…).
(…) Os últimos dois princípios pelos quais a Loja se torna perfeita são: O que está em cima é como o que está em baixo, e Quando o discípulo está pronto o Mestre está pronto também. (…)
Princípios do Hermetismo, como eu já disse diversas vezes aqui nas colunas para vocês.
(…) E é evidente para todos que desde que a Palavra se perdeu, quantos maus caminhos e fingimentos de caminhos surgiram. Os que mentem, mentem por devoção a um anseio de busca. Ainda os que viciam, viciam para fingindo que encontraram, e satisfazerem a sua sede de encontrar. O filtro da Palavra Perdida tornou-os seus amantes, e seguem atrás dela como cavaleiros errantes sem dama certa, por vias e florestas de sonho e erro, na eterna selva escura do conhecimento imperfeito. (…)
(…) É impossível chegar a qualquer entendimento íntimo da Maçonaria sem ter conhecimento da chamada Ciência Hermética, que vai desde as especulações hiper-metafísicas da Cabala até às semi-metafísicas da Astrologia. Se um Maçon, por instruído que seja no que é pensamento maçónico e meditador que tenha sido da simbólica da sua Ordem, não tiver levado os seus estudos até aos vários ramos da Ciência Hermética – alguns dos quais sem relação alguma aparente com a Maçonaria – ficará perenemente um profano de dentro. (…)
(…) Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criados outros Universos, e que esses Universos coexistam com o nosso interpenetradamente ou não. Por essas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (exceto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão “Deus”, dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer “Grande Arquitecto do Universo”, expressão que deixa em branco o problema se Ele é Criador, ou simples Governador do Mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, podemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. (…)
Como ressalvei no principio, nas centenas de fragmentos do espólio do poeta que abordam a temática maçônica, importa sublinhar um elemento: para Fernando Pessoa, a Ordem Maçônica é uma ordem iniciática com uma doutrina esotérica específica, preparatória para outras vias.
Para o poeta, o Templarismo é o prolongamento imediato da iniciação maçónica. Ora é sabido que os altos graus de todos os Ritos, com exceção do Francês, contêm graus de inspiração cavaleiresca templária a partir do 9º grau. A nível da Maçonaria não temos conhecimento de que este projecto iniciático seja cumprido a não ser que o segredo esteja incomunicável e para além da pompa e circunstância das cerimônias. Segundo informa José Manuel Anes só o Regime Escocês Rectificado possuiu hoje um Templarismo iniciático baseado numa doutrina cristã gnóstica, de que parece ter feito parte o nosso Irmão Gomes Freire de Andrade e provavelmente o que levou o rei D. Fernando a candidatar-se, tendo sido derrotado, a Grão-mestre da nossa Augusta Ordem.
@MDD – O Templarismo está mais explícito a partir do grau 18 no Rito Escocês Antigo e Aceito e nas Ordens de Aperfeiçoamento de York, especificamente o grau de Arco Real e de Cavaleiro Templário.
O que me leva a supor que, entre 1910 e 1935, terá havido algum círculo restrito que manteve viva esta tradição iniciática Templária com a qual Pessoa teve alguma relação. Isto explicaria o circuito iniciático e o Templo da Quinta da Regaleira, não restando pois qualquer dúvida sobre este filho da viúva nosso irmão.

Apreciava também o trabalho do famoso ocultista Aleister Crowley, tendo inclusive traduzido o poema Hino a Pã. Certa vez, lendo uma publicação inglesa de Crowley, encontrou erros no horóscopo e escreveu-lhe para o corrigir. Os seus conhecimentos de astrologia impressionaram Crowley e, como este gostava de viagens, veio a Portugal conhecer o poeta. Acompanhou-o a maga alemã Miss Hanni Larissa Jaeger. O encontro entre Pessoa e Crowley ocorreu com algum sensacionalismo, dado o Poeta Inglês ter simulado o seu suicídio na Boca do Inferno, o que atraiu várias polícias Europeias e a atenção dos média da época. Pessoa estaria dentro da encenação, tendo combinado com Crowley a notificação dos jornais e a redação de um “romance policiário” cujos direitos reverteriam a favor dos dois poetas. Apesar de ter escrito várias dezenas de páginas, essa obra de ficção nunca foi concretizada.
Duas Adendas Esclarecedoras
Fernando Pessoa – Últimas Estrofes do Poema S. João (1935)
(recolhido por Alfredo Margarido)
(…)
(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assignado,
mas cuja assignatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambolico.
Eu a julgar-te até catholico,
E tu sahes-me maçon.
Bem, ahi é que ha espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vario.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer fallar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precario.
Se és maçon,
Sou mais do que maçon – eu sou templarío.
Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.
Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.
Excerto da “Nota Biográfica” de Fernando Pessoa, 30 de Março de 1935 (…)
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: “35 Sonnets” (em inglês), 1918; “English Poems I – II” e “English Poems III” (em inglês também), 1922, e o livro “Mensagem”, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria “Poemas”. O folheto “O Interregno”, publicado em 1928, e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado.
Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador de estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: “Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação”.
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935
com comentários deste escriba.

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