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sexta-feira, 8 de junho de 2012

OS IRMÃOS PRIMOGÉNITOS DA ROSA-CRUZ

OS IRMÃOS PRIMOGÉNITOS DA ROSA-CRUZ


Por Pierre Montloin e Jean-Pierre Payard

As associações rosacrucianas que acabamos de enumerar eram conhecidas do mundo profano. Mas já não sucede o mesmo em relação àquela que vamos agora evocar.

Ela intitula-se Ordem dos Irmãos Primogénitos da Rosa-Cruz. O único membro cuja identidade é conhecida chama-se Roger Caro, residente em Saint-Cyr-sur-Mer (Var). Acabe de editar (numa tiragem extremamente reduzida) uma Legenda (1) da sua ordem, onde começa por afirmar a existência dos Irmãos Primogénitos. Mas trata-se de um livro do qual se o adágio taoista: «Tudo aquilo que pode ser dito não merece ser conhecido». Aplicando-se conhecido ao conhecimento integral, inexprimível e informal.

A obra relaciona, histórica e iniciaticamente, os Irmãos Primogénitos à tradição templária, da qual seriam, desde o século XV, os únicos depositários. Eles teriam recolhido aquilo que os processos de 1307 a 1314 tinham pretendido fazer desaparecer (2). Os Irmãos Primogénitos confirmariam igualmente ser os depositários de uma tradição alquímica.



Eis como a legenda explica a ligação existente entre a Ordem do Templo e a Rosa-Cruz; explicação cuja responsabilidade lhe pertence exclusivamente.

Após a dissolução da sua ordem em 1309, os templários foram perseguidos, aprisionados, mortos. Contudo, alguns deles conseguiram escapar, quer refugiando-se no seio de alguns ordens religiosas, quer ainda exilando-se para Espanha, para a Alemanha ou para a Inglaterra.

Entre os cavaleiro que desembarcaram em Inglaterra, encontravam-se alguns capelães e homens de armas. Refugiaram-se por algum tempo numa comendadoria situada em Londres, mas, quando o rei de Inglaterra quis aproveitar-se da sua situação de proscritos para se apoderar de todos bens, emigraram para a Escócia, onde foram recebidos de braços abertos.

Entre eles encontrava-se o barão Guidon de Montanor, que soube convencer o único homem que considerou capaz de voltar a reunir os seus irmãos caídos em desgraça: chamava-se esse homem Gaston de la Pierre Phoebus.

Durante longos e longos meses, o primeiro instruiu o segundo em alquimia. Em, 1316, estes dois «filósofos» conseguiram convencer vinte e cinco companheiros a regressar a França, a fim de levaram a cabo uma missão excepcional. Reagruparam-se sob um estandarte e tomaram a denominação de irmãos primogénitos da Rosa-Cruz. Sendo a filosofia alquímica uma filosofia universal, a sua única missão foi a de a perpetuar. Contudo, a sabedoria e a prudência exigiam que a Ordem e os seus membros permanecessem totalmente secretos...

Donde a Legenda deduz o seguinte:

Os fundadores da Ordem da Rosa-Cruz são antigos templários que, tendo sido desbaratados e perseguidos, começaram por refugiar-se em Inglaterra e seguidamente na Escócia.

Entre estes refugiados havia um alquimista que, em alguns meses, instruir um templário exilado.

Tendo em conta a filosofia ensinada, o mais absoluto segredo impunha-se a todos eles.

À questão: onde é que os templários tinham ido buscar a sua ciência hermética, responde a Lengenda:

«... Os templários, sob Hassan e Saladino, estudaram todo o tipo de filosofias numa casa da Sapiência à qual tinham acesso. Mas nem todos os cavaleiros do Cristo frequentavam esta casa da ciência. A maioria mantinha-se mais soldado do que intelectual; o número dos investigadores era restrito: alguns senescais e capelães.


Mais tarde, quando o acesso á via real oriental lhes foi fechado, os templários na arte da alquimia perpetuaram este ensino começando por distinguir e, seguidamente, por instruir aqueles dos seus pares aptos a sucede-lhe.

Foi assim que Guidon de Montanor e, depois, Gaston de la Pierre Phoebus, vieram a encontra-se na posse do segredo hermético e puderam, por seu turno, vir mais tarde a instruir alguns dos seus companheiros na fraternidade.

Desde o início que número dos irmãos da Ordem foi fixado em trinta e três. São dirigidos por um imperator. O actual imperator é o último elo de uma cadeia iniciática que, nos tempos modernos, compreende os nomes de Eliphas Lévi e de William Wynn Westcott, o qual também era membro da Societas Rosicruciana in Anglia (SRIA). Westcoot transmitiu os seus poderes a Lidell Mathers (Mac Gregor) que era simultaneamente imperator da Golden Dawn. Sucedeu-lhe um erudito, Sir Leigh Gardner; e, seguidamente, o fundador da Sociedade Antroposófica, o Dr. Rudolf Steiner.

No próprio seio deste grupo antroposófico, Steiner estabeleceu um círculo interior, dividido em três graus. Pratica-se aí um ritual vem parcialmente reproduzido na obra de Eliphas Lévi: Dogma e Ritual de Alta Magia.

O 56.º imperador foi um irlandês, A. Crowley (*).

Casado com um francesa, Caroline Faille, veio para França e alistou-se em 1915 na Legião Estrangeira, a fim de tratar os feridos. Em 1916, morreu na frente de batalha.

O 57.º imperator foi Jean-Jacques d'Ossa. Bispo missionário, missionário, ia para onde havia sofrimento, miséria e lágrimas. A sua vida foi um autêntico sacerdócio de altruísmo e de amor.

O actual imperator (o 59.º) tem por hierónimo Pierre Phoebus.

A alquimia dos Irmãos Primogénitos da Rosa-Cruz é simultaneamente espiritual e material. Ou seja, tem por objecto transmutar o homem vulgar, o profano, num verdadeiro iniciado; e, para o dito iniciado, transmutar o chumbo, metal vil, em ouro, substância divina. Com este duplo, fim, os adeptos e os seus discípulos meditam e põem em prática fim, os adeptos e os seus discípulos meditam e põem em prática os seguintes quarenta e dois axiomas:

I. Tudo aquilo que podemos levar a cabo por meio de métodos simples não deve ser tentado por meio de método complicados. Pois porque é que havemos de nos servir da complexidade para buscar aquilo que é simples?.

II. Não há nenhuma substância que possa ser aperfeiçoado sem passar por longo período de sofrimento. Grande é, pois, o erro daqueles que imagem que a pedra dos filósofos pode ser endurecida sem ter sido previamente dissolvida.

III. A natureza deve ser ajuda pela arte sempre que a energia lhe falte. A arte pode servir a natureza mas não suplantá-la.

IV. A natureza só em si mesma pode ser aperfeiçoada.

V. A natureza serve-se da natureza, compreende-a e vence-a. Não existe qualquer outro conhecimento para além do conhecimento de si mesmo.

VI. Aquele que não conhece o movimento, não conhece a natureza. A natureza é o produto do movimento. No momento em que cessar o eterno movimento, a natureza inteira cessará de existe. Aquele que não conhece os movimentos que se produzem no seu corpo é como um estranha na sua própria casa.

VII. Tudo aquilo que produz um efeito análogo àquele que é produzido por um elemento composto é igualmente um composto.

O Um é maior do que todos os outros números, porque ele produziu a infinita variedade das grandezas matemáticas; mas nenhuma alteração é possível sem a presença do Um, que penetra todas as coisas, e cujas faculdades estão presentes nas suas manifestações.

VIII. Nada pode passar de um extremo a outro sem a ajuda de um meio termo. Um animal não pode chegar ao celeste sem ter passado pelo homem. Aquilo que é antinatural deve torna-se natural antes de a sua natureza poder tornar-se espiritual.

IX. Devemos tornar-nos semelhantes a crianças, para que a palavra da sabedoria possa ressoar-nos no espírito.

X. Aquilo que ainda não está maduro deve ser ajudado por aquilo que já alcançou a maturidade. Assim se inicia a fermentação.

XI. Na calcinação, o corpo não se reduz, ao contrário, aumenta de qualidade.

XII. Na alquimia, nada pode dar fruto sem ter sido previamente macerado. A luz não pode luzir através da matéria se a matéria não se tiver tornado suficientemente subtil para deixar passar os seus raios.

XIII. Aquilo que mata produz a vida; aquilo que é causa de morte traz a ressurreição. Aquilo que destrói cria. A criação de uma nova forma tem por condição a transformação antiga.

XIV. Tudo aquilo que encerra uma semente pode ser aumentado, mas não sem a ajuda da natureza. Pois só por intermédio da semente é que o fruto contendo um maior número de sementes pode nascer.

XV. Todas as coisas se multiplicam e aumentam por meio de um princípio feminino. A matéria nada produz se não for penetrada pela Força. A natureza nada cria se não for impregnada pelo Espírito. O pensamento permanece improdutivo se não for tornado activa pela Vontade.

XVI. Todo o gérmen pode unir-se àquilo que faz parte do seu reino. Todo o ser é atraído pela própria natureza representada noutros seres. As cores e os sons de natureza análoga formam acordos harmoniosos; os animais, da mesma espécie associam-se unem-se aos gérmens com os quais possuem afinidades.

XVII. Uma matriz pura dá origens a um fruto puro. Só no santuário da alma é pode revelar-se o mistérios do Espírito.

XVIII. O fogo e o calor só podem ser produzidos pelo movimento. A estagnação é a morte. A alma que não sente petrifica-se.

XIX. Todo o método começa e acaba por um único método: a cozedura. Eis o grande arcano: é um espírito celeste oriundo do Sol, da Lua e das estrelas, e que foi tornado perfeito no objecto saturnino por meio de uma cozedura contínua, até ter finalmente atingido o estado de sublimação e a potência necessária para transformar os metais vis em ouro. Esta operação executa-se pelo fogo hermético. A separação do subtil a partir do espesso deve ser feita juntando-lhe continuamente água; porque quanto mais terrestres são os materiais, tanto mais diluídos eles devem ser. Deve continuar-se até que a alma esteja unida ao corpo.

XX. Toda a obra se executa empregando unicamente água. É a mesma água em que se movia o espírito de Deus no princípio, quando as trevas cobriam a face do abismo.

XXI. Todas as coisas devem voltar àquilo que as produziu. Aquilo que é terrestre vem da terra; aquilo que pertence aos astros provém dos astros; aquilo que é espiritual procede do Espírito e retorna a Deus.

XXII. Onde os verdadeiros princípios faltam, os resultados são imperfeitos.

XXIIII. A arte começa onde a natureza cessa de agir. A arte executado por meio da natureza aquilo que a natureza é incapaz de executar sem a ajuda da arte.

XXIV. A arte hermética não se alcança através de uma grande variedade de métodos. A pedra é una. Não há mais do que uma só verdade eterna, imutável. Ela pode surgir sob muitos e variados aspectos; uma, num tal caso, não é verdade que muda, somos nós que mudamos a nossa forma de concepção.

XXV. A substância que serve para preparar o Arcanum deve pura, indestrutível e incombustível. Ela deve estar isenta de elementos materiais grosseiros, e ser inatacável á dúvida e à e á prova do fogo das paixões.

XXVI. Não procureis o gérmen da pedra dos filósofos no seio dos elementos. Pois é só centro do fruto que pode ser encontrado o gérmen.

XXVII. A substância da pedra dos filósofos, é mercurial. O sábio procura-se no mercúrio; o louco procura criá-la na vacuidade do seu próprio cérebro.

XXVIII. Emprega só metais perfeitos. A sabedoria do mundo é simples loucura aos olhos do Senhor.

XXIX. Aquilo que é grosseiros e espesso deve ser tornado subtil e fino pela calcinação. Isso é uma operação basta penosa e lenda; mas ela é necessária para arrancar a própria raiz do mal.

XXX. Uma ciência desprovida de vida é uma ciência morta; uma inteligência desprovida de espiritualidade não passa de uma falsa luz, de uma de empréstimo.

XXXI. Na solução, o dissolvente e a dissolução devem permanecer junto. O fogo e a água devem ser tornados aptos a combinarem-se. A inteligência e o amor devem permanecer para sempre unidos.

XXXII. Se a semente não for tratada pelo calor e pela humidade, torna-se inútil. A frialdade contrai o coração e a sequidão endurece-o, mas o fogo do amor divino dilata-o.

XXXIII. A terra não produz quaisquer frutos sem uma contínua humidade. Nenhuma revelação pode ter lugar nas trevas, a não ser por intermédio da luz.

XXXIV. A humidificação tem lugar por meio da água, com qual possui muitas afinidades.

XXXV. Todas as coisas secas tendem naturalmente a chamar a si a humildade de que necessitam para se tornarem completas na sua constituição.

O Um, donde saíram todas as outras coisas, é perfeito, e é por isso que as coisas contêm em si a tendência para a perfeição e a possibilidades de a alcançarem.

XXXVI. Uma semente, só por si, é

XXXVII. O calor activo produz a cor negra naquilo que é húmido; em tudo o que é seco, a cor branca, e em tudo o que é branco, a cor amarela.

XXXVIII. O fogo deve ser moderado, ininterrupto, lendo, igual, húmido, quente, branco, suave, abrasando todas as coisas, contido, penetrante, vivo, inexaurível. É o fogo que desce dos céus para abençoar toda a humanidade.

XXXIX. Todas as operações devem ser feitas num único vaso e sem o retirar do lume. A substância empregue para a preparação da pedra dos filósofos deve ser reunida num local e não dispersa por vários locais.

XL. O vaso deve ser hermeticamente selado, porque, se o espírito encontrasse uma fenda por onde se escapar, a força estaria perdida.

Deve haver sempre à porta do laboratório um guarda armado de um gládio de fogo, a fim, de examinar todos, os visitantes, expulsando os indignos.

XLI. Não abrais o vaso antes de a humidificação se ter completado.

XLII. Quando mais a pedra é alimentada, tanto mais a vontade se avoluma. A sabedoria divina é inesgotável; apenas a nossa faculdade de receptividade é limitada.
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(1) Legenda, palavra latina que pode ser traduzida por «anais».

(2) Processo que vieram a culminar na dissolução da Ordem do Templo e na condenação à morte (ou ao exílio) de numerosos cavaleiros desta ordem cavaleiresca.

(*) Não confundir com Aleister Crowley.

Bibliografia: Pierre Montloin e Jean-Pierre Bayard, Os Rosa-Cruz. Edições 70, Lisboa, 1979.

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