O guardador de rebanhos - VIII
Fernando Pessoa
Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
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SE É A MERA CURIOSIDADE QUE AQUI TE CONDUZ, DESISTE E VOLTA; SE PERSISTIRES EM CONHECER O MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA, FAZ O TEU TESTAMENTO E DESPEDE-TE DO MUNDO DOS VIVOS.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Reflexões de Fernando Pessoa sobre a Maçonaria Cristã
Antes de iniciar este trabalho quero fazer uma reflexão. É a de que Fernando Pessoa considera, nestas suas notas, a Maçonaria como uma ordem iniciática com uma doutrina esotérica específica, preparatória para outras vias mais altas de Ocultismo.
Feito este reparo, e considerando todavia o grande interesse destas reflexões, entro na matéria do trabalho.
Conforme bem sublinhou Yvete Centeno na sua obra Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, o interesse pelo ocultismo e pelas tradições herméticas despertou no poeta por volta de 1906, quando tinha dezessete anos e vivia ainda na África do Sul.
Cedo Fernando Pessoa se afastou da religião católica em que tinha sido criado, como se pode constatar pelos fragmentos Excomunhão a todos os sacerdotes e sectários de todas as religiões do mundo, assinado por Charles Anon (1907) e Pacto com Satanás, feito por Alexander Search no mesmo ano.
Destas duas personagens literárias inglesas, só Search deixa umas centenas de poemas, entre os quais o poema Circle, de raiz nitidamente mágica.
O CÍRCULO
Tracei um círculo no chão,
Era uma figura estranha mística
Onde eu pensei que não haveria abundam
Mudo símbolos adequados de mudança,
E fórmulas complexas de Direito,
Qual é a boca do bucho da mudança.
Meus pensamentos mais simples em vão tinham originado
O atual dessa loucura livre,
Mas esse meu pensamento é condenado
Para símbolo e analogia:
Considerei um círculo pode se condensar
Com calma toda violência mistério.
E assim, em clima cabalístico
Um círculo traçado curioso eu lá;
Imperfeito do círculo feito ficou
Pensamento formado com minuciosa atenção.
Do fracasso da magia profundamente I
A lição foi aprendida para me fazer suspirar.
Tracei um círculo no chão,
Era uma figura estranha mística
Onde eu pensei que não haveria abundam
Mudo símbolos adequados de mudança,
E fórmulas complexas de Direito,
Qual é a boca do bucho da mudança.
Meus pensamentos mais simples em vão tinham originado
O atual dessa loucura livre,
Mas esse meu pensamento é condenado
Para símbolo e analogia:
Considerei um círculo pode se condensar
Com calma toda violência mistério.
E assim, em clima cabalístico
Um círculo traçado curioso eu lá;
Imperfeito do círculo feito ficou
Pensamento formado com minuciosa atenção.
Do fracasso da magia profundamente I
A lição foi aprendida para me fazer suspirar.
A sua vinda para Lisboa em 1908 e a frequência da Faculdade de Letras levam o poeta a interessar-se pelo estudo da filosofia. A sua produção dessa data é constituída por apontamentos, anotações de leituras e sinopses de livros de filósofos. O poeta e pensador exprime-se então com a generosidade de quem procura o conhecimento com fins altruístas. Em 1910, numa lúcida auto-análise, Fernando Pessoa desabafa: “Eu era um poeta animado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas”.
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