Além da analogia existente entre os atributos e o significado dos nomes dos deuses do Egito e da Grécia, um outro aspecto que levou o historiador a acreditar na origem egípcia da teogonia grega foram as semelhanças entre suas lendas. Uma dessas lendas, encontrada tanto entre os gregos como entre os egípcios, era a que narra a castração de um deus por outro numa disputa por supremacia. Heródoto deve ter ficado bastante intrigado, pois a história era peculiar demais para ser encarada como mera coincidência.
Por sorte, as fontes gregas das quais Heródoto provavelmente extraiu seus relatos ainda existem. São várias obras literárias, escritas e bem conhecidas muito antes dele; como a Ilíada, de Homero, as Odes, de Pindaro de Tebas, e principalmente a Teogonia (''Genealogia Divina''), de Hesíodo, um escritor nascido em Áscara, na Grécia central, e que viveu no século 8 a.C.
Sendo poeta, Hesíodo preferiu atribuir a autoria da Teogonia às Musas, as deusas da música, da literatura e da arte, que segundo ele o incentivaram a ''celebrar em canções'' as histórias da ''reverenciada raça dos deuses, desde seu ínicio... e cantar em seguida a raça dos homens e dos gigantes, para com isso alegrar o coração de Zeus no Olimpo''. Diz Hesíodo que as Musas o procuraram num certo dia em que ele estava '' apascentando suas ovelhas'' perto da Montanha Sagrada em que elas habitavam.
Apesar dessa introdução bucólica, a história dos deuses revelada a Hesíodo pelas Musas era cheia de paixão, revolta, astúcia, mutilação e sangrentas lutas. A despeito de toda a glorificação de Zeus, não existe nos relatos nenhuma tentativa aparente de se encobrir a torrente de sanguinolenta violência que o levou à supremacia. Hesíodo, transmitindo ''as coisas que as Musas, nove filhas de Zeus, cantaram'', escreveu:
